quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O remanejo dos Cota 400


Por: Ana Paula Todisco


Durante o caminho da viagem para o litoral sul de São Paulo, descendo a Rodovia Anchieta, você já deve ter olhado umas casinhas - muitas vezes chamadas de “barracos” – às margens da pista ascendente, no meio do Parque Estadual da Serra do Mar e próximo aos quilômetros 47 e 48, mas o que muitos não imaginam é quem são os moradores de lá, o que eles fazem e qual é a realidade que eles estão passando.


Para entender e aprender um pouco mais sobre o Cota 400, um dos bairros de Cubatão, os estudantes do último ano de jornalismo da Universidade de São Caetano do Sul, Caio Caprioli, Lívia Gonzalez, Luciane Brandão, Mayara Tabone e Paula Venâncio, lançarão o livro-reportagem Olhares: memórias e identidades do bairro Cota 400 como trabalho de conclusão de curso.


Um bairro que é remanescente de um acampamento do Departamento de Estradas e Rodagens do Estado de São Paulo (DER) e foi erguido na década de 1930 para abrigar os funcionários da obra que culminou na inauguração da rodovia Anchieta.


Até hoje existem três moradores que ajudaram nas obras e a maioria dos que hoje moram lá, vieram de gerações das famílias criadas nos próprio bairro. Uma segunda leva chegou à época da construção da rodovia dos Imigrantes, e por último existem aqueles que não encontraram espaço e condições de morar na cidade e buscaram o Cota 400 como possibilidade de subsistência, porém eles são os que vivem na parte “crítica” do morro. Bem no topo.


O grande lance do livro-reportagem é mostrar o que acontecerá com as 644 pessoas que habitam o local, já que desde 1977 eles encontram-se em área de preservação ambiental. Diante de um impasse entre direitos fundamentais, o Governo do Estado de São Paulo e a prefeitura de Cubatão firmaram uma parceria para implantar um plano de manejo das comunidades que se encontram nas áreas do parque. Os “Cota 400” terão que modificar toda a rotina e estilo de vida, já que passarão a morar em habitações construídas em Cubatão.


Para dar um gostinho de quero mais, leia agora um trecho do livro Olhares: memórias e identidades do bairro Cota 400.


O homem e sua história. O menino corre descalço pela mata. A menina de mini-saia e olhos pintados enrubesce a face debruçada na janela ao receber o olhar discreto e apaixonado do vizinho. O rádio toca Bee Gees. Os maridos voltam cansados da lida e deleitam-se nos ventres úmidos de suas esposas. O choro agudo na madrugada anuncia a chegada de mais um menino. Ao amanhecer o cheiro do bolo se espalha pela casa. O sol penetra por entre a fresta da janela, iluminando o bule de café sobre a mesa. Uma mão marcada pelo tempo veste a luva, abre o forno e retira a assadeira. O riso estridente das crianças invade a cozinha. Todos deixam seus afazeres e se reúnem em volta da mesa. O bolo é cortado.A manteiga derrete sobre a fatia grossa. Um tempo, um cheiro, um gosto, um espaço compartilhado. Memórias fragmentadas. Pequenos gestos que constroem a história: do indivíduo, de sua família, de sua comunidade. Nossas lembranças recorrem à paisagem. Todos, em algum momento, escolhem algum lugar para chamar de lar.”

Um comentário:

Arquimedes Pessoni disse...

Ótimo texto, parabéns!